Como o Académico pode construir uma nova centralidade no futebol português
E, entre os principais factos deste arranque da Liga Portugal 2026/27, poucos serão tão relevantes, dentro e fora do campo, como aquilo que está a acontecer em Viseu.
O Académico regressou à Primeira Liga 37 anos depois e não se limitou a chegar. Está a competir. Empatou na Luz, venceu três jogos consecutivos — algo que nunca tinha conseguido no principal escalão — e soma 11 pontos.
É o melhor arranque da história do clube na Liga. E poderia ser ainda melhor: nos jogos com Santa Clara e Marítimo houve decisões de arbitragem que legitimam a convicção de que ficaram pontos por conquistar. Com mais quatro, o Académico teria 15 e estaria a discutir lugares europeus.
Mas reduzir este fenómeno à classificação seria perceber apenas metade da história.
O Fontelo tem sido uma das imagens fortes desta Liga. Sucessivas lotações esgotadas, uma extraordinária taxa de ocupação e, sobretudo, uma evidência que nem a presença dos grandes altera: no Fontelo é o Académico que joga em casa. A equipa sente-o. Os adversários percebem-no. E Viseu apropriou-se novamente do seu estádio e do seu clube.
Fora de casa, a resposta não é menor. O apoio academista acompanha a equipa de forma massiva e ruidosa. Há uma comunhão que já ultrapassa o entusiasmo natural de quem regressou ao principal palco do futebol português. Existe identificação. Existe pertença.
Existe um apoio tão concreto que, tão rídículo quanto curioso, nas transmissões da SportTV nota-se o baixar do volume vindo da bancada academista, para que não se sobreponha ao som ambite geral – os nossos adeptos deveriam saber isto! Estão mesmo de parabéns!
Tudo isto ajuda a explicar outra das grandes conquistas destes primeiros meses: a cidade reconhece-se nesta equipa.
Num grupo com carácter, competitivo, solidário, com aquilo a que o treinador tantas vezes chama espírito viriato. Também aqui houve mérito na construção do plantel. Em vez de desmontar a equipa que conquistou a subida, o Académico preservou uma parte significativa da sua base. Manteve referências, relações e identidade. Acrescentou qualidade sem apagar a memória.
Há ainda uma dimensão que merece ser sublinhada. Mesmo quando teve razões fortes para contestar decisões de arbitragem, o Académico não construiu o seu discurso sobre desculpas. Treinador e jogadores mantiveram uma narrativa positiva, responsável e intelectualmente honesta: analisar, reconhecer erros próprios, trabalhar e melhorar.
Talvez seja também por contraste que Viseu se esteja a destacar tanto.
Enquanto parte do futebol português continua entretida nas guerras estéreis entre os mesmos protagonistas, distraído nas intermináveis discussões sobre arbitragem e réu na má qualidade de alguns relvados, o Académico apresenta futebol, estádio cheio, um excelente relvado no Fontelo e, sempre, identidade, adeptos e uma cidade mobilizada.
É isto que significa construir uma nova centralidade.
O futebol português precisa dos grandes clubes. Evidentemente. Mas, se quiser crescer verdadeiramente como competição e afirmar-se na Europa, não pode continuar fechado nas quintinhas habituais. Precisa de novos territórios competitivos, novas massas de adeptos, novos mercados e cidades capazes de acrescentar valor à Liga.
Viseu está a demonstrar que pode ser uma delas. Ainda só passaram sete jornadas. Convém não perder essa noção, nem trocar ambição por euforia. Mas também não devemos ter medo de reconhecer aquilo que os factos mostram.
O Académico está a fazer história dentro do campo. Viseu está a fazê-la nas bancadas.
E, juntos, começam a demonstrar que existe espaço no futebol português para um novo exemplo e para a contrução de uma nova centralidade. Que faz muita falta ao futebol nacional.





