
Desinformação por IA prolifera à medida que se aproximam eleições intercalares nos EUA
Segundo a agência noticiosa France-Presse (AFP), a proliferação de vídeos de campanha gerados por IA em todas as eleições, locais ou nacionais, ocorre num contexto de perda progressiva de confiança na inteligência artificial.
"O problema pode não ser as pessoas acreditarem nestes anúncios, mas o facto de estes anúncios e, de forma mais geral, todo o conteúdo de fraca qualidade produzido por IA poderem levá-las a duvidar de tudo", declarou à AFP Sarah Kreps, diretora do Tech Policy Institute da Universidade Cornell (nordeste).
"As pessoas podem acabar por rejeitar conteúdos autênticos, considerando-os mais um conteúdo falsificado, o que mina a confiança e leva os eleitores a afastarem-se", acrescenta.
O Wesleyan Media Project, que contabiliza as despesas de campanha, identificou 164 vídeos "gerados ou melhorados com recurso a IA" em todo o país desde o início do ano.
Este grupo independente de académicos estima em pouco menos de 80 milhões de dólares (70,1 milhões de euros) o custo destes anúncios políticos financiados tanto por republicanos como por democratas e difundidos em massa na televisão e nas redes sociais.
Mas o grupo considera que a contagem fica aquém da realidade, porque é difícil saber com certeza se foram utilizadas ferramentas de IA em algumas mensagens.
"Saber que a tecnologia se tornou suficientemente avançada para enganar o espetador médio, aliado ao facto de estar a ser utilizada na comunicação eleitoral, é suficiente para minar a confiança dos eleitores", lamenta à AFP Ilana Beller, da organização não-governamental Public Citizen.
Mais a mais, acrescenta, as ferramentas de IA estão baratas e amplamente acessíveis, permitindo reduzir os custos de produção, muitas vezes exorbitantes.
"Já não é necessário pagar a uma equipa de filmagem ou contratar atores para criar conteúdo de qualidade em pouco tempo", explica Isabel Linzer, do Center for Democracy & Technology, outra organização não partidária.
"Também já não são necessários editores especializados em efeitos especiais, estas ferramentas abrem caminho à criatividade", acrescenta Linzer, considerando que os anúncios satíricos ou humorísticos gerados por IA funcionam como uma "caricatura política moderna".
"Uma questão pertinente é saber se a utilização da IA nos anúncios políticos não será uma estratégia de comunicação destinada a promover um candidato, gerando uma ampla cobertura mediática gratuita", questiona Linzer.
Para Scott Babwah Brennen, diretor do Center on Technology Policy da Universidade de Nova Iorque, os anúncios gerados por IA podem ajudar os candidatos a angariar fundos ou mobilizar apoiantes, mas existem poucas provas de que influenciem o voto dos eleitores.
"Uma boa parte destes conteúdos parece efetivamente eficaz para chamar a atenção, mas desconhece-se se isso se traduzirá num sucesso eleitoral [...] É possível que os anúncios negativos gerados por IA se voltem contra os seus autores", considera.







