
Fenprof revela dois terços das escolas afetadas pela falta de professores
Dois terços das escolas inquiridas num estudo da Federação Nacional dos Professores (Fenprof) assinalam terem sido afetadas pela falta de professores no último ano letivo, e um terço das direções prevê dificuldades para o novo ano escolar que agora arranca.
De acordo com o inquérito apresentado em conferência de imprensa na Escola EB1 e Jardim de Infância de Monte Abraão, do Agrupamento de Escolas Ruy Belo, em Queluz, concelho de Sintra, pelo menos um dos efeitos decorrentes da falta de docentes — turmas temporariamente sem atividades letivas (42,5%), afetação de grupos de recrutamento (40%) e sobrecarga horária (38%) — foi sentido por 63,7% das escolas que responderam ao questionário.
O estudo, realizado nas duas primeiras semanas de setembro, recolheu respostas das direções de 29,2% dos agrupamentos de escolas ou escolas não agrupadas. Só 36,2% das respostas indicam não ter havido problemas de falta de professores.
Segundo as conclusões da Fenprof, "o problema agravou-se e um terço dos diretores prevê dificuldades ao longo do ano letivo [de 2026/2027]". Adicionalmente, 59,2% das respostas afirmam não ser possível fazer qualquer previsão, o que é "motivo de preocupação".
O secretário-geral da Fenprof, Francisco Gonçalves, destacou que o problema se agravou particularmente no distrito de Lisboa, seguindo-se os distritos de Setúbal, Faro, Leiria e Porto, afetando sobretudo o 1.º ciclo e disciplinas como Português e Matemática. "A Educação Especial também é um dos grupos de recrutamento mais carenciados", apontou.
Os dados da Fenprof indicam que, na semana anterior, existiam mais de 110 mil alunos sem todos os professores necessários.
Estimando que 1.102 professores se aposentem entre setembro e outubro, o dirigente sindical criticou a atuação do Ministério da Educação, afirmando que "não se resolvem os problemas [nas escolas] com anúncios diários" e que a situação "piorou com o desmantelamento do Ministério da Educação", referindo-se às transformações internas operacionais entretanto realizadas.
No concelho de Sintra, segundo dados da Fenprof, existem 744 alunos sem escola, enquanto em Lisboa há 550 alunos nesta situação, indicou Francisco Gonçalves.
Para além da falta de professores, as dificuldades reportadas pelas escolas abrangem problemas com equipamentos tecnológicos, condições dos edifícios e transportes escolares.
No âmbito da transição digital, 65,8% das escolas consideram os equipamentos informáticos "insuficientes e obsoletos" e 28,3% assinalam que "não estão mesmo operacionais".
A Fenprof alerta ainda para as condições climáticas, descrevendo a resposta das escolas às variações térmicas como "uma das conclusões mais preocupantes" e um "problema estrutural". As escolas estão "pouco preparadas para temperaturas extremas": o frio é referido em 40% das respostas, o calor em 27% e a precipitação em 22%.
Relativamente aos transportes e deslocações, 32% das respostas identificam "problemas de adequação da rede ou dos horários".
Os resultados do inquérito demonstram que "as dificuldades de funcionamento das escolas não se resumem à falta de professores" e que persistem problemas estruturais relacionados com recursos humanos, equipamentos, edifícios, condições térmicas, transportes e apoio aos alunos, que condicionam a qualidade do serviço educativo.
Francisco Gonçalves afirmou que, perante este cenário, o Governo "pode contar com a Fenprof e com os professores" se quiser "mesmo resolver o problema da falta de professores".
Caso contrário, a estrutura sindical continuará um caminho de "oposição e luta", incluindo já no dia 5 de outubro, Dia Mundial do Professor, com manifestações na rua.







