Viseu, onde nascem vozes que não conhecem Fronteiras...
Basta olhar para a nossa região para perceber que existe aqui um verdadeiro viveiro de músicos, cantores, compositores e intérpretes que vivem a música com intensidade e a respiram como parte essencial da sua identidade. Mas nem sempre foi fácil construir um percurso artístico a partir daqui.
Durante muitos anos, para muitos artistas nascidos nesta região, o caminho para o reconhecimento parecia passar inevitavelmente por fazer as malas. Lisboa, Porto ou até outros países surgiam como destinos quase obrigatórios para quem procurava mais oportunidades, maiores palcos e uma possibilidade real de transformar o talento numa carreira. Vi muitos partir.
Artistas de enorme qualidade, vozes extraordinárias e músicos de grande sensibilidade que sentiram que, para serem ouvidos, precisavam de procurar fora aquilo que ainda era difícil encontrar na sua própria terra. E cada partida deixava sempre aquele inevitável pensamento: e se tivessem podido ficar?
Havia orgulho por vê-los vencer. Mas havia também alguma tristeza por saber que a região não tinha conseguido, naquele momento, criar todas as condições necessárias para reter tanto talento.
A arte não conhece fronteiras. Não escolhe uma cidade grande ou pequena para nascer. A arte acontece onde existe talento, conhecimento, dedicação e trabalho. E Viseu sempre teve tudo isso.
Ao longo do meu percurso como músico, produtor e agente, tive o privilégio de acompanhar muitas destas histórias de perto. Posso dizer, com enorme orgulho, que alguns dos artistas que passaram pelo meu trabalho e pelos Estúdios Produsom, em Viseu, acabaram por levar a sua música muito para além das fronteiras da nossa região.
Cada gravação, cada projeto e cada artista que entrou pela porta do estúdio trouxe consigo um pouco da identidade de Viseu. E talvez essa seja uma das maiores recompensas deste caminho: perceber que, de alguma forma, pudemos ajudar a dar voz a talentos que mais tarde conquistaram outros públicos e outros palcos.
Recordo particularmente os telefonemas que, ao longo dos anos, fui recebendo de produtores, responsáveis artísticos e profissionais de Lisboa e de outros grandes centros. Tinham descoberto um músico, uma voz ou um artista e queriam saber mais.
— Quem é este artista? De onde vem?
E a resposta dava-me sempre um orgulho especial:
— Vem daqui. Vem de Viseu.
Talvez esse seja um dos maiores privilégios de quem trabalha na produção musical: poder reconhecer um talento quando ainda está a dar os primeiros passos, acreditar nele e ajudar a criar condições para que possa ser ouvido.
Ser uma ponte entre o talento e a oportunidade.
E, olhando para trás, reconheço também que eu próprio poderia ter seguido outro caminho.
Também poderia ter sido um daqueles que fizeram as malas.
Poderia ter abandonado a minha terra e procurado construir uma carreira noutro lugar, num grande centro urbano ou até fora do país. Talvez, em determinados momentos, essa parecesse a opção mais fácil ou mais segura para quem queria crescer profissionalmente.
Mas escolhi ficar. Escolhi acreditar que também era possível fazer acontecer a partir de Viseu.
Escolhi construir, produzir, gravar e criar oportunidades aqui. Não por falta de ambição, mas precisamente por acreditar que a ambição não precisa de ter uma única morada.
Também se pode sonhar grande a partir de uma cidade que não é Lisboa, nem Porto, nem qualquer outro grande centro.
A distância nunca deveria ser uma limitação para quem tem algo verdadeiro para mostrar. Hoje, felizmente, o panorama é diferente. Viseu conquistou um lugar cada vez mais relevante no mapa cultural nacional. Existem mais projetos, mais iniciativas, mais espaços de criação e uma consciência crescente de que o talento da região merece ser valorizado, apoiado e divulgado.
Mas ainda há caminho a fazer. Continuamos a precisar de acreditar mais nos nossos artistas. De criar oportunidades. De investir na formação, na produção e na divulgação. De perceber que apoiar a cultura não é apenas organizar eventos: é ajudar a construir percursos, criar futuro e dar condições para que os talentos possam permanecer sem terem de escolher entre a sua terra e os seus sonhos.
Porque quantas vozes extraordinárias ainda estarão à nossa volta sem terem tido a oportunidade de ser ouvidas? Quantos músicos estarão hoje a criar em silêncio, à espera de alguém que lhes diga:
“Vale a pena. Continua.”
Acredito profundamente que Viseu tem talento para o mundo. Sempre teve.
A geografia pode determinar onde nascemos, mas não deve determinar até onde podemos chegar. Uma canção criada em Viseu pode emocionar alguém em Lisboa, Paris, Rio de Janeiro ou em qualquer outro lugar do planeta. Uma voz descoberta num pequeno palco pode conquistar grandes auditórios. Um músico que começa numa sala modesta pode levar a sua arte aos maiores palcos.
Porque a verdadeira arte não pede autorização para atravessar fronteiras.
E talvez seja esse o grande desafio — e também a grande responsabilidade — de todos aqueles que trabalham na cultura: continuar a descobrir, apoiar e acreditar.
A arte é para quem sabe, para quem sente e, sobretudo, para quem trabalha por ela todos os dias.
E em Viseu há muita gente que sabe. Há muita gente que sente. E há muito talento que merece ser ouvido.
Viseu não é apenas uma terra de passagem. É uma terra de criação, de vozes e de artistas. Uma terra que continua a provar, todos os dias, que a arte pode nascer em qualquer lugar — porque, quando é verdadeira, não conhece fronteiras.






