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Irão: Seis meses de guerra com EUA deixam conflito sem saída

A guerra entre os Estados Unidos e o Irão completa na sexta-feira seis meses sem que Washington tenha conseguido eliminar o programa nuclear iraniano ou provocar uma mudança de regime em Teerão.

Contudo, o conflito deixa para já como rasto uma crise energética mundial, milhares de mortos, uma NATO dividida e o Presidente Donald Trump perante um problema que assume relevância eleitoral e que prometera resolver rapidamente.

A Operação Fúria Épica começou em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram uma ofensiva aérea de grande escala contra instalações militares, nucleares e dirigentes iranianos, causando, entre outras mortes, a do líder supremo, Ali Khamenei.

Washington justificou a intervenção com a necessidade de impedir o Irão de adquirir uma arma nuclear, depois de negociações em Omã terem fracassado perante a recusa de Teerão em abdicar do enriquecimento de urânio.

A guerra retomou uma confrontação que se agravara com a primeira ofensiva israelita contra instalações nucleares iranianas, em junho de 2025, e décadas de hostilidade iniciadas com a Revolução Islâmica de 1979.

Israel considera o programa nuclear, os mísseis balísticos e o apoio iraniano a organizações como Hezbollah ou Hamas uma ameaça existencial, enquanto Teerão acusa Washington e Telavive de procurarem derrubar a República Islâmica.

Trump apresentou inicialmente a operação como rápida e decisiva: em março, dizia que estava “quase concluída”, em abril proclamava uma “vitória total” e em maio comunicava ao Congresso o fim das hostilidades diretas.

O regime iraniano deixou de divulgar o número de mortos durante a primeira semana — depois de ter reportado 1.230 mortes, um número que subiu para mais de 3.400 desde que os ataques foram retomados a 30 de julho.

Entretanto, em Israel, morreram mais de 30 pessoas, e dezenas de outras foram mortas noutros países, como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Iraque e o Kuwait, nos ataques de retaliação de Teerão.

Entre ameaças de “aniquilar” o Irão, cessar-fogos e novas ofensivas, o Presidente foi sucessivamente anunciando acordos que Teerão negava ou que acabavam por não se concretizar.

Uma primeira trégua, mediada pelo Paquistão em abril, interrompeu temporariamente os bombardeamentos, depois de Trump ter ameaçado destruir infraestruturas iranianas se o estreito de Ormuz não fosse reaberto.

Seguiu-se, em 17 de junho, um novo entendimento, mas os combates recomeçaram em julho e a guerra passou progressivamente de uma campanha aérea para uma batalha económica e energética.

Teerão sobreviveu politicamente e respondeu transformando Ormuz na sua principal arma estratégica.

O estreito, por onde passava antes da guerra cerca de um quinto do petróleo comercializado mundialmente, permanece praticamente bloqueado, apesar das repetidas declarações de Trump de que a navegação está a regressar à normalidade.

O petróleo Brent, que chegou aos 126 dólares por barril em abril, continua cerca de 24% acima do preço anterior à guerra.

Dentro do Irão, 39 dias de bombardeamentos agravaram uma economia já debilitada pelas sanções.

A inflação anual aproximou-se dos 88% em julho, a inflação alimentar ultrapassou 120% e o rial atingiu mínimos históricos, enquanto Teerão estima em milhões os empregos diretos e indiretos perdidos.

Mas a capacidade iraniana para impor custos aos adversários também alterou o equilíbrio regional.

Mísseis foram lançados contra Israel e contra países do Golfo que acolhem forças norte-americanas, e Teerão ameaçou atingir instalações petrolíferas, redes elétricas e infraestruturas de água caso esses Estados continuassem a apoiar operações dos EUA.

A extensão regional da guerra colocou igualmente à prova a NATO.

França, Alemanha, Reino Unido e outros aliados recusaram participar diretamente numa guerra que Washington iniciou sem uma consulta prévia aprofundada, levando Trump a acusar a Aliança de cometer um “erro muito estúpido” e a questionar se os europeus estariam disponíveis para defender os Estados Unidos numa crise futura.

A NATO afastou a aplicação do artigo 5.º (princípio da defesa coletiva) e procura agora apenas facilitar a coordenação entre países interessados em garantir a liberdade de navegação em Ormuz, sem assumir uma missão própria.

O confronto foi particularmente duro com Espanha.

Depois de Madrid ter recusado apoiar a operação no Irão e limitar a utilização de bases espanholas, Trump classificou o país como um “péssimo parceiro”, voltou a criticá-lo por não acompanhar a meta de 5% do PIB para a Defesa e, em julho, chegou a ordenar a preparação da suspensão do comércio bilateral.

Portugal seguiu uma via diferente, autorizando a utilização da Base das Lajes, nos Açores, mediante garantias de que não seria usada para atacar infraestruturas civis.

Até ao início de abril tinham sido autorizadas 76 aterragens e 25 sobrevoos de aeronaves militares norte-americanas. Depois do início dos ataques a Teerão, Portugal condicionou o uso da base a três critérios: respeito pelo princípio da proporcionalidade e que ação fosse em resposta a um ataque e sem atingir alvos civis.

A utilização da base provocou críticas da oposição e pedidos de maior transparência sobre o envolvimento português numa guerra em que o Governo defendia simultaneamente uma solução diplomática.

Seis meses depois, a guerra tornou-se também um problema interno para Trump.

Uma sondagem da Quinnipiac indicava no final de julho que 60% dos norte-americanos se opunham ao conflito, enquanto outra, da Universidade Marquette, mostrava que 88% consideravam que Washington não alcançara os seus objetivos.

Com as eleições intercalares de novembro a poderem retirar aos republicanos uma ou ambas as câmaras do Congresso, o aumento do preço dos combustíveis e a imagem de uma guerra sem saída atingem precisamente um Presidente que prometeu manter os Estados Unidos longe de novos conflitos.

Trump substituiu entretanto as ameaças de grandes operações militares por uma estratégia de “asfixia” económica, com novas sanções destinadas a cortar as fontes de receita iranianas, mas cuja eficácia dependerá em grande medida da atitude de países como a China.

Teerão responde que não capitulará e condiciona qualquer acordo ao levantamento das sanções e ao reconhecimento dos seus interesses de segurança.

A diplomacia, porém, continua aberta e o chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, esteve esta semana em Teerão depois de falar com Trump, numa nova tentativa de aproximar as partes.

Islamabade anunciou “progressos significativos” em conversações destinadas a terminar a guerra e reabrir Ormuz, enquanto Omã negoceia com o Irão a criação de um corredor temporário para navios, num conflito que promete prolongar-se sem um fim à vista.

Agosto 27, 2026 . 10:30

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