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O atentismo em política

Agosto 21, 2026 . 10:30
Saiu por estes dias em França um filme épico, em duas partes, sobre a epopeia do General de Gaulle durante a segunda guerra mundial.

O filme tem sido um sucesso, com 5 milhões de bilhetes vendidos só em França e estreia em Portugal em Outubro. Chama-se a Batalha de Gaulle.
O filme retrata os momentos heróicos entre Junho de 1940, após o colapso da resistência francesa à investida alemã, e Agosto de 1944, libertação de Paris pela segunda divisão blindada do General Leclerc (alias de Philippe de Hauteclocque) e a descida triunfal dos Campos Elísios pelos franceses que libertaram Paris, com de Gaulle à cabeça, perante um a dois milhões de franceses em êxtase. Vale a pena ver.
De Gaulle arrostou, nestes 4 anos de luta solitária, contra o governo colaboracionista de Vichy que o condenou à morte, contra os alemães, contra a má-vontade do seu aliado Churchill e contra a hostilidade patente de Roosevelt, presidente dos EUA, que o detestava. Foi o momento mais alto da sua vida, o zénite daquilo que um homem pode fazer pela sua nação. Ele e os franceses nunca se esqueceram disso.
Essa parte da vida de de Gaulle está exaustivamente contada na biografia que sobre ele escreveu recentemente o historiador Julian Jackson, que aparentemente dá o argumento ao filme.
Julian Jackson prossegue o seu relato: em 1946, perante a criação da 4ª República e das suas instituições políticas subordinadas aos velhos partidos da República, decidiu afastar-se e entrou num exilio interno em Colombey, onde tinha uma casa de campo, acompanhado da mulher e de uma filhinha deficiente, que morreu entretanto, para seu imenso desgosto.
Longamente esperou que uma nova e existencial crise nacional o tirasse do exílio a que voluntariamente se remeteu, e o trouxesse de novo para o palco principal da vida política, mas nos seus termos e condições. Com uma nova República no bolso.
Entretanto foi fazendo a sua “travessia do deserto”, expressão que cunhou e ganhou foros na vida política. Um deserto cheio de intervenções, discursos e intransigência política em relação mesmo àqueles dos seus apoiantes que aceitavam colaborar com o regime parlamentar da 4ª República francesa.
Essa travessia chegou ao fim, quando em 1958 a vida política francesa entrou em colapso perante a ameaça de o exército se revoltar para defender o milhão de colonos franceses na Argélia (ao contrário do que cá aconteceu em 74/75…). O presidente Coty tocou a rebate e chamou de Gaulle para, mais uma vez, salvar a França. O resto é a história da 5ª República Francesa, que dura até hoje. Este período de doze anos ficou conhecido como o período do «atentismo» (de attendre, ou seja, esperar, em francês).
De Gaulle, claro, não se limitou a esperar pelo dia em que o chamassem para voltar a salvar a França. Fez muito por isso e para um homem político que fazia gala de desprezar a política, mostrou-se um operador político de altíssimo gabarito.
Atravessamos hoje, em Portugal, um momento algo parecido com o da 4ª República Francesa, de profunda instabilidade política, no meio de um mundo em confusão total, em que as crises climáticas, a ascensão da IA, os emergentes protagonistas mundiais, a degenerescência do «ocidente» e a crise profunda por que passa, fazem prever um futuro extremamente complicado.
Como na França de então (e na de hoje…) começa a ser difícil, para não dizer impossível, constituir maiorias sólidas e reformistas, que permitam fazer o que tem de ser feito e arrostar com o desprazer do eleitorado.
O mundo está para além de complicado e perigoso, como nunca esteve na nossa memória viva. Grosso modo, há dois terços do eleitorado que acham (e sabem) que o país carece de reformas profundas, desde o seu sistema de educação, ao sistema nacional de saúde, à desregulamentação da actividade económica, à simplificação do desempenho do estado.
Esses dois terços repartem-se por dois partidos inimigos entre si: a AD (PSD/CDS) e o Chega. Coincidem em pouco salvo na sua total desconfiança face às posições do outro terço do eleitorado que é de esquerda. Este terço pretende salvaguardar as instituições e hábitos da nossa actual República.
Um ponto une a direita e separa-a da esquerda: a noção muito clara de que em Portugal e na Europa temos de disciplinar severamente os fluxos migratórios. Quanto ao resto, não há coincidência de pontos de vista em quase nada.
No entanto, se esses dois terços do eleitorado não se entendem e os dois blocos de governo possível não são capazes de se pôr de acordo sobre o que tem de ser feito, a instabilidade política está ao virar da esquina.
Suponho que este ano de 2026, os socialistas ainda viabilizarão, pela abstenção, o orçamento do estado da AD, mas vai ser seguramente o último ano em que o farão. Para o ano, encontrarão um pretexto qualquer para derrubar o governo, sabendo bem que não conseguirão governar porque há dois terços do eleitorado que não lhes viabilizarão governo algum.
Há aí alguém que se sinta capaz de unir a direita e a extrema direita portuguesa, os tais dois terços, tenha provas dadas num momento de grande crise nacional e esteja a fazer a sua travessia do deserto em direcção a uma nova República?
Conhecem alguém que responda por estes desideratos? Que pretenda ser o De Gaulle português, salvando a Pátria num momento de aperto, nos seus termos e condições?

(*) Subscritor do "Manifesto: Por uma Democracia de Qualidade

Agosto 21, 2026 . 10:30

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