No Fontelo, o futebol jogou pela inclusão
Foram cinco dias de competição, convívio e partilha, com mais de 300 participantes, provenientes de várias regiões do país e também com a presença de equipas internacionais. Mas quem olhou apenas para os resultados dos jogos não conseguiu perceber a verdadeira dimensão deste torneio.
No Futebol de Rua, o resultado mais importante não aparece no marcador. Está na forma como cada participante recupera a confiança, aprende a acreditar nas suas capacidades e volta a sentir que faz parte de uma equipa e da sociedade. Criado pela Associação CAIS, o Futebol de Rua utiliza a força e a popularidade do futebol como instrumentos de inclusão social. Em Viseu, este trabalho conta com a Adamastor – Associação Cultural como promotora distrital, numa parceria que aproxima o projeto das pessoas e das instituições locais.
O futebol tem uma linguagem que quase todos compreendem. Para jogar, não é necessário perguntar de onde vem cada pessoa, qual é a sua condição económica ou quais foram as dificuldades que enfrentou. Dentro do campo, todos têm um lugar, uma responsabilidade e um objetivo comum. É precisamente aí que começa a inclusão.
Através do futebol, desenvolvem-se competências que vão muito além do domínio da bola. Aprende-se a trabalhar em equipa, a respeitar regras, a ouvir, a comunicar, a tomar decisões e a lidar com a vitória e com a derrota. Aprende-se também a chegar a horas, a assumir responsabilidades, a controlar emoções e a confiar nos outros. Para alguém que atravessou momentos difíceis, voltar a sentir que os outros contam consigo pode fazer uma enorme diferença.
Num jogo, cada passe recebido transmite uma mensagem muito simples, mas poderosa: “Tu estás aqui. Fazes parte desta equipa.”
Vivemos num tempo em que o futebol profissional aparece frequentemente associado ao dinheiro, à polémica, à pressão e ao conflito. O Futebol de Rua devolve-nos uma dimensão mais simples e, talvez, mais verdadeira deste desporto. Uma bola, um espaço para jogar, algumas regras e um grupo de pessoas que aprende a caminhar na mesma direção.
Naturalmente, o futebol não resolve sozinho os problemas da exclusão social. Não substitui políticas de habitação, emprego, saúde, educação ou acompanhamento social.
Mas pode ser uma porta de entrada. Pode aproximar pessoas das instituições, criar rotinas, revelar capacidades, fortalecer a autoestima e devolver esperança a quem, por diferentes razões, deixou de acreditar em si próprio. Por isso, receber esta final nacional foi muito mais do que acolher um evento desportivo. Foi afirmar Viseu como uma cidade disponível para receber, integrar e valorizar as pessoas.
Foi também reconhecer o trabalho da Associação CAIS, da Adamastor, dos voluntários, técnicos, árbitros, parceiros e de todos aqueles que acreditam no desporto como ferramenta de transformação social. Os jogos terminaram, os prémios foram entregues e as equipas regressaram às suas terras. Mas o verdadeiro impacto do Futebol de Rua continua para além do Fontelo.
Continua em cada amizade criada, em cada competência adquirida e em cada participante que regressa a casa com mais confiança no futuro. No Futebol de Rua também existem vencedores e vencidos. Contudo, a maior vitória acontece quando alguém volta a sentir que pertence a algum lugar. E esse é, seguramente, o golo mais importante que o futebol pode marcar.






