Lá fora reconhecido, cá dentro contestados
Uma das imagens que mais me marcou foi o ambiente vivido nas cidades e nos estádios. Milhares de adeptos de países completamente diferentes, com culturas, religiões e formas de viver o futebol distintas, conseguiram partilhar os mesmos espaços com respeito e alegria. Viram-se camisolas misturadas, fotografias entre rivais, famílias inteiras a celebrar o futebol e uma verdadeira festa nas bancadas.
É claro que uma competição desta dimensão exige um enorme trabalho das forças de segurança. Houve jogos considerados de maior risco e um forte dispositivo policial. Mas, no essencial, o que fica é a sensação de que o futebol conseguiu fazer aquilo que tantas vezes a sociedade não consegue, juntar pessoas diferentes sem que a rivalidade se transformasse em violência. Infelizmente, nem tudo foi positivo.
Ao longo deste Mundial, senti muitas vezes que a política ocupou um espaço demasiado grande. O futebol nunca estará completamente desligado da realidade do mundo, nem isso seria possível.
Mas quando os discursos políticos, as provocações e as tensões diplomáticas começam a roubar protagonismo ao próprio jogo, alguma coisa deixa de fazer sentido. O Mundial deve ser uma celebração do futebol e um ponto de encontro entre povos. É essa a magia desta competição. Quando a política passa para primeiro plano, perde-se um pouco dessa essência.
Mas houve também um motivo muito especial para nós, portugueses, sentirmos orgulho. João Pinheiro chegou ao grupo restrito de árbitros que a FIFA manteve em competição até às fases decisivas do Mundial. Para quem conhece minimamente a forma como estas competições funcionam, sabe que isto não acontece por acaso.
Cada jogo é avaliado ao pormenor e só continuam aqueles que demonstram qualidade, equilíbrio e personalidade para dirigir os encontros mais exigentes. É precisamente aqui que encontro um dos maiores paradoxos do nosso futebol.
Enquanto a FIFA continua a confiar nos árbitros portugueses para os maiores palcos do futebol mundial, em Portugal continuamos a olhar para a arbitragem quase sempre pela negativa. Parece que há uma enorme dificuldade em reconhecer mérito. Quando tudo corre bem, quase ninguém fala do árbitro. Quando existe um erro, mesmo que seja difícil ou compreensível, instala-se imediatamente a polémica.
É evidente que os árbitros erram. Como erram jogadores que falham golos de baliza aberta, treinadores que tomam decisões menos felizes ou dirigentes que fazem escolhas erradas. A diferença é que o erro do árbitro raramente é perdoado. É repetido vezes sem conta, comentado durante dias e, demasiadas vezes, transformado num ataque à sua competência e até ao seu caráter.
Por isso, o percurso de João Pinheiro neste Mundial deve ser motivo de satisfação para todos os portugueses, independentemente do clube que apoiam. O reconhecimento da FIFA não resulta de opiniões nem de debates televisivos.
Resulta de avaliações rigorosas feitas por quem tem a responsabilidade de escolher os melhores árbitros do mundo. Talvez esteja na altura de olharmos para a nossa arbitragem com um pouco mais de equilíbrio. Criticar quando há razões para isso faz parte do futebol. Mas também faz parte saber reconhecer o mérito quando ele existe.
Porque, enquanto nós continuamos muitas vezes a discutir se os nossos árbitros têm qualidade, lá fora essa resposta parece estar dada há muito tempo. E talvez devêssemos sentir orgulho nisso.





