A competição feminina ao serviço do status quo
Desde tenra idade a sociedade encaminha as meninas e as mulheres para o papel de rivais, colocando-as uma contra as outras, comparando-as e fazendo-as competir.
Quer seja pela exploração de quaisquer inseguranças com o corpo - incutindo nas jovens mulheres uma sensação de desajuste e de insuficiência – quer seja pela ideia de que a amizade de uma menina, de uma jovem, de uma mulher não é um vínculo seguro e que a qualquer momento a proximidade com essa mulher pode converter-se num ponto de fragilidade.
A título de exemplo (um entre muitos), atentemos na expressão comum: “A “amiga” roubou-lhe o namorado”. Para além da perspetiva de que o “namorado” representa o que há de valioso e relevante a reter na vida de uma mulher (ao invés de se cultivar uma narrativa social centrada na relevância da vida da própria jovem) e para além da petulância subjacente a acharmos que o namorado é um ser inanimado, sem vontade própria e sempre em perigo de ser subtraído à posse da legítima dona, a frase encerra em si uma amálgama de mensagens que perpetuam a dominância masculina ou o chamado “status quo”:
• o homem como objeto de desejo e valor em si mesmo;
• a ideia de que as mulheres não podem confiar umas nas outras;
• a perceção de que o bom desenvolvimento das suas vidas decorre da forma como duas mulheres se confrontam (a que “rouba” e a que é “roubada”).
A estas afirmações somam-se outras, que contribuem para inquinar as relações femininas por via do ciúme, da rivalidade, da competição e cristalizar relações difíceis entre mulheres, em qualquer fase da sua vida, tendência de que é acabado exemplo a relação sogra-nora.
Este efeito cáustico nos laços femininos contribui para a falta de união das mulheres em torno de causas comuns, fragilizando as suas lutas e concorrendo para o fortalecimento da figura masculina como fonte de poder, de verdade e de segurança, numa circunstanciada retroalimentação da norma social vigente.
Interromper este ciclo, exercício difícil que é sobretudo responsabilidade de todas nós, é, portanto, a melhor maneira de garantir que não somos nós, mulheres, a aumentar a força dos grilhões sociais que nos prendem. A união é, mais uma vez, a ideia subversiva que pode mudar o mundo.





