
Pequim desencoraja empresas de substituir trabalhadores por inteligência artificial
Segundo o jornal norte-americano Wall Street Journal, o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng reuniu-se no verão passado com alguns dos maiores empregadores do país, incluindo empresas tecnológicas, bancos e fabricantes automóveis, para avaliar o impacto da IA no mercado de trabalho.
Embora algumas empresas tenham indicado que a tecnologia poderá criar empregos nos próximos anos, alertaram também que a adoção plena da IA poderá eliminar mais de 30% dos postos de trabalho atualmente existentes.
De acordo com fontes citadas pelo jornal, a resposta levou Pequim a emitir, no final do ano passado, orientações dirigidas sobretudo a empresas tecnológicas para evitarem despedimentos associados à adoção da IA.
A preocupação surge numa altura em que a segunda maior economia mundial enfrenta dificuldades persistentes no mercado de trabalho. A taxa de desemprego entre jovens urbanos dos 16 aos 24 anos, excluindo estudantes, situou-se em 16% em abril.
"A China está a tentar equilibrar duas prioridades fundamentais: estabilidade social e crescimento da produtividade. A IA, enquanto tecnologia potencialmente transformadora, poderá obrigar Pequim a fazer escolhas difíceis", afirmou Kyle Chan, investigador do grupo de reflexão Brookings Institution, especializado em política industrial e tecnológica chinesa, citado pelo WSJ.
Apesar das reservas, o Governo chinês continua a promover a adoção da IA. A estratégia "IA+", apresentada em agosto passado, privilegia a utilização da tecnologia em setores como a indústria transformadora e a logística, áreas consideradas menos sensíveis à substituição de trabalhadores qualificados de escritório.
Segundo fontes citadas pelo jornal, as autoridades passaram também a exigir que as empresas expliquem despedimentos e, em alguns casos, demonstrem que os cortes de pessoal não resultam diretamente da substituição por sistemas de IA.
Vários casos laborais recentes têm reforçado esta mensagem.
Em Hangzhou, no leste da China, um supervisor de controlo de qualidade identificado apenas pelo apelido Zhou processou a empresa onde trabalhava após ter sido substituído por um sistema de IA. O tribunal deu-lhe razão e ordenou o pagamento de uma indemnização equivalente a cerca de 38 mil dólares (32,6 mil euros) por despedimento indevido.
Num caso semelhante em Pequim, um trabalhador responsável pela recolha de dados cartográficos perdeu o emprego após a automatização das suas funções. Também venceu o processo contra o empregador. As autoridades municipais usaram o caso para recordar que a IA não constitui fundamento legítimo para despedimentos e que as empresas devem privilegiar formação e reconversão profissional.
Ao mesmo tempo, gestores de recursos humanos de empresas tecnológicas reconhecem que algumas funções já estão a ser reduzidas devido à crescente capacidade da IA, enquanto outras estão a ser reformuladas para que os trabalhadores se concentrem em tarefas mais complexas e de contacto humano.
O impacto parece ser particularmente sentido pelos trabalhadores mais jovens. John Xie, fundador de uma empresa de 'software' em Cantão, no sul do país, afirmou ao jornal ter criado vários agentes de IA capazes de substituir estagiários e funcionários com até dois anos de experiência.
"Preocupo-me sinceramente com os jovens. Os recém-licenciados precisam de anos para adquirir experiência, mas a IA consegue dominar essas mesmas competências em poucas semanas ou meses", afirmou.







