“Lentidão”
Entrou no consultório devagar. Demasiado devagar. Tão devagar que chegou tarde. Não era uma lentidão qualquer; havia nela algo de inquietante. A hora já passara. Explicou-me, com uma tranquilidade desarmante, o que tinha. Arrepiei-me. Já vi muito, mas há coisas que ainda perturbam.
Interrompeu-se de súbito. Encurtou o discurso, como se soubesse que não era preciso mais. Talvez tivesse percebido.
— O senhor doutor sabe, não é verdade? Não respondi. Limitei-me a deixar o tempo assentar.
No fim, agradeceu. Com agrado, com respeito. Vestia-se de cor-de-rosa e branco, maquilhada com elegância — como se ainda pudesse provocar o tempo que a queria levar. Saiu. Era a última da manhã.
de atravessar o recinto. O dia estava luminoso. O céu limpo, o sol leve, quase infantil. Uma brisa subia do rio, suave, como um suspiro antigo. Fui até à porta, encostei-me à ombreira e vi-a afastar-se: lenta, muito lenta, mas firme. Elegante.
Não sei se era a morte que a conduzia, ou se era ela que a guiava. Caminhavam juntas, indiferentes ao mundo — ao céu, ao sol, ao rio que corria sem se fazer ouvir.
De repente, parou. Virou-se. Sorriu. Um sorriso leve, quase silencioso, atravessado de solidão. Acenou-me. Respondi. Tive a minha lição. Adiei, sem mágoa, a refeição.
Há quem precise de abrandar tudo para continuar a viver. Talvez seja essa a última ilusão possível: a do tempo. Até quando? Não sei. Ela também não.
Saber que a morte já habita um corpo ainda vivo é algo que me inquieta profundamente. Ainda a vi por instantes, afastando-se devagar. Talvez pensasse na solidão, na dor que a esperava. A sua arma era simples: atrasar o tempo.
O tempo que ainda lhe restava.






