Os árbitros também têm classificações, subidas e descidas de divisão
Há festas quando uma equipa sobe de divisão e há tristeza quando outra desce. Faz parte da essência do desporto. Mas existe uma realidade muitas vezes esquecida por adeptos, dirigentes e até comentadores, os árbitros também vivem exatamente essa pressão.
Os árbitros também têm classificações, também eles lutam por objetivos, também existem subidas e descidas de divisão na arbitragem portuguesa. Ao longo de toda a época, cada jogo conta para a avaliação de um árbitro. Cada decisão, cada posicionamento, cada relatório e cada nota atribuída pelos observadores pode aproximar ou afastar um árbitro dos seus objetivos.
E no final da temporada há emoções iguais às do futebol. Há árbitros felizes porque conseguiram atingir os lugares de subida. Há outros frustrados porque ficaram por pouco ou porque acabaram despromovidos. Muitas vezes esquecemo-nos que por trás do apito estão pessoas que também trabalham, treinam e fazem sacrifícios enormes para tentar chegar mais longe.
A arbitragem distrital vive muito desta realidade. Existem árbitros jovens que passam fins de semana inteiros longe de casa, fazem centenas de quilómetros, conciliam trabalho ou estudos, com treinos físicos e preparação teórica, tudo por amor ao futebol. E muitas vezes fazem-no sem reconhecimento, ouvindo apenas críticas quando algo corre menos bem.
Quando um árbitro consegue terminar a época nos lugares que dão acesso às categorias nacionais da Federação Portuguesa de Futebol, muita gente pensa que a subida está garantida. Porém, não é assim tão linear.
Depois de serem dos melhores nas suas associações distritais, ainda têm de disputar vagas com árbitros de todo o país. Entram então nas chamadas provas de promoção da FPF, testes físicos exigentes, provas escritas, avaliações técnicas e momentos de enorme pressão psicológica.
Ou seja, o árbitro não sobe apenas porque foi dos melhores no seu distrito. Tem de provar, novamente, que merece estar entre os melhores árbitros nacionais. É uma competição dura e muitas vezes pouco compreendida fora do meio da arbitragem.
Enquanto um clube festeja logo a subida quando termina em lugar de promoção, o árbitro ainda precisa ultrapassar uma última etapa extremamente exigente. Há quem veja uma época inteira de esforço cair por segundos num teste físico ou por pequenas diferenças numa classificação.
E isso gera frustração, naturalmente. Mas também gera ainda mais vontade de voltar a tentar. Por isso, talvez fosse importante que o futebol português olhasse para a arbitragem de outra forma. Criticar faz parte do jogo e os árbitros, como qualquer interveniente, erram. Mas também merecem respeito pelo trabalho que desenvolvem.
Muitas vezes fala-se da arbitragem apenas pela negativa. Mas raramente se fala do percurso difícil que existe até chegar aos campeonatos nacionais ou até aos grandes palcos do futebol português. Todos os árbitros começam nos campos distritais, muitas vezes, perante poucas pessoas, em ambientes difíceis e quase sempre longe do reconhecimento público.
Os árbitros também sonham subir de divisão e vivem a pressão das classificações. Eles conhecem a alegria de cumprir objetivos e a dor de falhar por tão pouco.
No fundo, os árbitros vivem um campeonato paralelo dentro do próprio futebol. Um campeonato onde não há adeptos nas bancadas a aplaudir as vitórias, mas onde existe muito trabalho, dedicação e paixão pelo jogo.






