Última Hora
Pub

“Os vinhos do Dão são fantásticos mas ainda há muito a fazer na sua afirmação”

Manuel Pinheiro é um homem do diálogo apaixonado pela região e pelos vinhos do Dão, sem nunca esquecer os de Lafões. O presidente da CVR Dão garante que “o Dão não é cópia de coisa nenhuma e que a qualidade dos seus vinhos já fala por si”. Mas, reconhece é preciso fazer mais

Porque decidiu avançar para a presidência da CVR Dão?

Trabalho em vinhos desde setembro de 92. Estive em várias regiões e empresas, mas na sequência de uma alteração na minha vida profissional precisei de mudar um pouco de rumo e, porque o dr. Arlindo Cunha não pretendia continuar, surgiu a oportunidade de avançar para este projeto.

E como tenho alguma experiência, por exemplo de 20 anos na presidência dos vinhos verdes, achei que era entusiasmante. A ideia é, obviamente continuar o trabalho feito, mas puxar muito mais pela região.

É então para si um desafio, como o é a própria região?

Sem dúvida. A região tem grandes desafios. E começo por um ponto positivo de que todos nos devemos orgulhar. O Dão tem grandes vinhos e isso ajuda-nos pois é um ponto de partida fantástico. Mas depois também tem grandes dificuldades. Somos uma região com problemas de desertificação, uma região em que a viticultura está a ser abandonada. Temos cinco mil hectares de vinha competitiva e em produção pois terá mais mas abandonada.

Curiosamente tem uma boa rede quer de cooperativas, quer de empresas, temos castas fantásticas que normalmente associamos à Touriga Nacional e ao Encruzado mas que vão muito para além disso. Mas o país e os mercados externos não reconhecem ainda no Dão os vinhos fantásticos que temos e por isso precisamos de afirmar mais a região. Ou seja, dar a provar vinhos do Dão é uma forma de conquistar, mas temos de fazer mais.

De que forma?

Na formação dos produtores, nas estratégias de promoção, levar produtores lá fora e trazer clientes à região. Temos depois que associar a isto o enoturismo porque somos uma região que tem uma situação geográfica privilegiada que está muito perto do Porto e de Lisboa onde podemos ir cativar turistas. Desde logo, pode-se vir de avião para Viseu, o que é uma vantagem.

Para além disto temos uma oferta fantástica e somos uma região diversa. Muitas vezes associa-se o Dão a Viseu, e bem pois é a grande capital da região, mas é muito mais do que isso. Há Dão em Mortágua, muito perto de Coimbra; há Dão em Seia e Gouveia, já vinhos de montanha na sub-região Serra da Estrela. Temos uma região diversa, com vários terroires, que nos deve ajudar a agregar valor.

Manuel Pinheiro Cvr Dão 2
“O Dão não é cópia de coisa nenhuma e perco a cabeça quando nos comparam com os vinhos do Douro ou com os da Borgonha”, confessa Manuel Pinheiro

O produto é bom. E temos bons enólogos?

Não só temos bons enólogos como temos bons centros de investigação a trabalhar. Nós aqui, trabalhamos com o Colab, uma associação nacional que nos ajuda a fazer desenvolvimento, com o Instituto Politécnico de Viseu por entre uma série de entidades muito boas. Há, no entanto, uma dificuldade ou um desafio que é fazer chegar o conhecimento aos produtores, o que se faz com ações de formação nas quais estamos a tratar.

Mas acredito que alguns dos problemas de região se tornam mais fáceis de resolver se nos sentarmos todos à mesa porque afinal de contas não somos assim tantos. Por exemplo, estamos a preparar uma nova identidade corporativa da comissão e da região e isso foi feito precisamente sentando os principais produtores à mesa para todos debatermos, identificarmos e como é que devemos comunicar a região.

E vamos fazer o mesmo na viticultura, juntando os principais intervenientes a discutirem os problemas da viticultura e como é que podemos trazer valor para a atividade e com isso trazer gente jovem para nela investir.

Feito o diagnóstico, já há ideias para alcançar esses objetivos?

Sim. Para a viticultura, claramente a aposta na formação. Também vamos observar a questão do seguro de colheitas. Na região e em concreto neste período em que começa a haver o risco de geadas e, mais à frente, o granizo, precisamos que a região esteja toda coberta por um seguro de colheitas e há muitos produtores que não o estão.

Na enologia eu diria que felizmente estamos bastante bem e portanto há trabalhos de formação em curso e outros que se podem fazer. Onde há claramente a pedalar muito é no marketing dos vinhos e do enoturismo.

Em 2026 estamos a executar ainda o plano que vem da direção anterior que está bem feito, mas em 2027 quereremos ser mais inovadores e vamos com certeza fazer coisas novas de mercado externo. Mas já em 2026 estamos a preparar uma série de iniciativas

Se forem os produtores do Dão a gerirem a sua própria região eles dirão sempre melhor

Primeiro uma tertúlia, depois uma prova de vinhos com mais de 50 anos. Depois, um evento que junta o melhor dos dois mundos: o vinho e a gastronomia. E não vão ficar-se por aqui...

E assim vamos colocando a nossa região nos palcos onde deve estar. Estamos a fazer o ciclo de tertúlias que tem por objetivo abrir a casa à cidade e à região. O primeiro orador foi o dr. Adalberto Campos Fernandes que nos falou sobre a saúde. Dia 22 de maio, será o embaixador e ex-ministro António Martins da Cruz, que nos vem falar sobre a questão da guerras e outros conflitos que assolam o mundo e as suas consequências até para o nosso dia a dia.

Depois teremos outros temas sempre nesta ideia de trazer a Viseu figuras nacionais que nos ajudem a refletir sobre questões estratégicas que não têm a ver com o vinho. Nos dias 26 e 27 de junho vamos fazer um grande evento vínico aberto à região com os produtores e uma ligação do vinho e gastronomia.

O vinho do Dão deve fazer parte da nossa cultura e não precisamos de andar a empurrá-lo a ninguém porque ele já ótimo o suficiente. Temos é de o integrar na nossa vida, na gastronomia, na cultura, nas atividades de ar livre entre muitas outras.

Costuma dizer que as dificuldades se podem transformar em oportunidades para a região. De que forma?

Muitas das dificuldades de facto são oportunidades. Por exemplo, há dias, um produtor de vinho biológico da Serra da Estrela explicava-nos que faz o amanho da sua vinha a cavalo. Podemos olhar para aquilo como algo atrasado, mas pelo contrário, é algo interessantíssimo para ser comunicado pelo respeito que representa para o ambiente.

Um outro exemplo é o facto de temos cá algumas castas que são completamente desconhecidas do cliente e podemos olhar para isso como uma dificuldade pois naturalmente não são as grandes castas mundiais, mas temos de virar isso ao contrário e dizer ao cliente que no Dão há pérolas para descobri.

Eu acredito que se formos buscar na nossa origem essas especificidades da região, no final vamos estar a propor aos outros coisas inovadoras. E o Dão no século XXI é uma região inovadora, do futuro, por ir devemos ir buscar muito da nossa raiz e desenvolvê-la.

Claro que nós não queremos que isso aconteça numa agricultura de pobreza e para isso temos que remunerar melhor as uvas. Nós não queremos que isso aconteça em vinhos baratos onde não somos competitivos.

Nós temos de ser competitivos em vinhos de segmento médio superior, trazendo valor para a região. O nosso preço médio já está muito próximo do do Douro e não é por isso um ponto crítico. Mas queremos ser mais ambiciosos.

Manuel Pinheiro Cvr Dão3
Nós temos no inverno muita gente a podar ao frio para podermos ter vinhos fantásticos em cima da mesa

Irrita-se - gostei da expressão - quando apelidam a região de Borgonha portuguesa. Porquê?

Sem dúvida. O Dão não é cópia de coisa nenhuma e perco a cabeça quando comparam o Dão com os vinhos do Douro ou com os da Borgonha. Nós não somos número 2 de ninguém, somos uma região única se não não éramos demarcada. Os nossos amigos da Borgonha fazem vinhos fabulosos e bem, mas nós também fazemos.

Essa qualidade já é reconhecida a nível internacional?

Não. Se andarmos para trás 30 ou 40 anos, o Dão era a grande região dos vinhos em Portugal e perdeu um pouco essa imagem, mas não perdeu a qualidade. E essa imagem tem de ser reconquistada. Nós estamos interessados não em sermos líderes nacionais ou de exportação de volume, mas sim em ocupar um nicho de valor que permita que os nossos vinhos sejam reconhecidos como grandes vinhos e portanto com um preço médio acima daquilo que é o preço de mercado.

Como é que isso se faz?

Alguma presença em feiras, se bem que as feiras mundiais estão a perder força. É importante que a imprensa internacional prove os nossos vinhos e que os premeie bem, e os próprios concursos internacionais. Ou seja, que haja um bom reporte dos nossos vinhos. E temos que trazer cá gente para nos ajudar a solidificar ou a criar essa imagem. Mas aí nós temos claramente uma vantagem porque somos uma região fantástica também a nível turístico onde temos genuinidade para dar. Não precisamos ambicionar a estar em todos os países do mundo, nós temos de ser muito focados em poucos mercados e nesses poucos crescer.

“A comissão vitivinícola tem contas robustas, mas pode pedalar muito mais”, afirma Manuel Pinheiro

Mas esse futuro também exige alteração de mentalidades. Como se consegue?

Algumas das grandes personalidades da História portuguesa são aqui da região onde existem hoje coisas fantásticas. Nós não somos menores em nada ao Douro, ao Alentejo ou a qualquer outra região e por isso entendo que mudamos essa mentalidade ou desenvolve-mo-la gradualmente trabalhando em equipa, falando mais uns com os outros.

Nós não nos podemos dar ao luxo de estarmos sozinhos. Mais vale vencermos em conjunto do que sermos derrotados um a um e não tenho dúvida de que o conseguiremos. Eu não tenho soluções para problema nenhum que sejam melhores do que as soluções que quatro ou cinco produtores à volta de uma mesa em grupo consigam apresentar.

Portanto, se eu os conseguir sentar todos à mesma mesa ajuda com certeza a encontrar melhores soluções e a mudança de mentalidade também vem disso.

Qual o papel da CVR Dão?

Sem dúvida que há pequenos pontos em que nós podemos dar uma ajudar. Por exemplo, podemos dizer bem alto que o Dão é uma grande região e uma região de grandes vinhos que nos orgulha. Fazer chegar essa mensagem aos restaurantes é muito importante. Os restaurantes da região, que tem uma gastronomia fabulosa, podem ter tudo a ganhar em promover os nossos vinhos.

Temos uma ação que está a ser preparada com o Instituto Politécnico de formação à restauração e estamos a tentar construir uma especial para a região de Lafões. É com especial empenho que queremos trabalhar com a restauração.

E essa mudança de mentalidade também passa por termos orgulho na nossa região o que acredito que também se conseguirá quando apresentarmos em breve a nova campanha e incentivarmos os produtores a escreverem Dão bem alto nas suas propriedades, nas suas vinhas.

Apontou o envelhecimento da população como um problema para a região e a captação de jovens como solução. De que forma?

Nós temos que pensar que país é que sonhamos todos como cidadãos e não podemos sonhar um país de pobreza mas sim, um país de decência no que diz respeito ao rendimento. E por isso, as uvas têm que ser pagas de forma a que o produtor no final do ano faça contas e chegue à conclusão que compensou. E nisso, ainda temos um percurso a fazer. As uvas não são mal pagas por maldade de ninguém mas apenas porque não estamos a conseguir no mercado o valor que queremos.

Mas temos que fazer isso pois a única forma de trazer gente nova para a viticultura é se esta for rentável. Não é com discursos redondos que trazemos os jovens nem para a viticultura nem para qualquer outro setor de atividade. É justo dizer que na parte do enoturismo e restauração também está difícil congregar gente.

Mas aí também é um problema regional, enquanto região Centro e sobretudo, centro mais interior, precisamos de abordar profundamente esta questão de desertificação. Trazer para cá mais ensino superior, garantir que os jovens possam fazer a sua carreira aqui no território. Não podemos estar a drenar os nossos melhores para a costa ou para Erasmus onde ficam na Europa para sempre.

Entrevista completa na edição de hoje do Diário de Viseu.

Abril 29, 2026 . 08:30

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Seguir
Receba notificações sobre
0 Comentários
Feedbacks Embutidos
Ver todos os comentários
Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right