
Histórias de resistência de portuguesas e africanas retratadas no documentário "Mulheres de Abril"
"Mulheres de Abril" propõe uma viagem pela memória e pela história recente do país, através das vozes de Margarida Tengarrinha, Julieta Rocha, Ana Maria Cabral, Isabel do Carmo, Maria Emília Brederode Santos, Luísa Sarsfield Cabral, Teresa Loff Fernandes, Zezinha Chantre, Helena Neves e Ruth Rodrigues, cujas vidas foram marcadas pela perseguição, prisão, tortura, censura, exílio, clandestinidade, luta e resistência.
"A história até agora foi contada por homens e sobre homens. É o momento de serem as mulheres a contar a história da luta e da resistência antifascista e anticolonialista. E eu sei isso por experiência pessoal da minha família, das minhas ancestrais", explicou a realizadora à Lusa.
Desde logo a sua mãe, Ruth Rodrigues, uma das 10 "capitãs de abril", como gosta de dizer e que participa no filme.
"Eu sou uma filha da Revolução. Cresci a ouvir as histórias desta resistência das mulheres da minha família que lutaram pela liberdade. Começou logo na minha bisavó, depois a minha avó, a minha mãe. De um lado da família e do outro lado”, disse.
“E eu cresci a ouvir estas histórias de como os meus pais, por exemplo, me usaram como disfarce para esconderem propaganda para uma greve dentro das minhas fraldas, quando eu tinha uns meses, numa sessão de distribuição clandestina durante a madrugada", contou a autora.
Perante o legado familiar, Raquel Freire, que já tinha feito o filme " Histórias das Mulheres do meu País" (2020), sabia que haveria de contar também as histórias das mulheres de Abril: "Uma das mulheres do filme é a minha mãe, que foi uma grande resistente antifascista e é ainda".
A vontade de escutar as vozes africanas, através dos testemunhos de Teresa Loff Fernandes, Zezinha Chantre e Ana Maria Cabral (viúva de Amílcar Cabral) - todas integraram as fileiras do Partido Africano para a Independência da Guiné Bissau e Cabo Verde (PAIGC) - pareceu-lhe justa e natural.
"A luta anticolonialista foi o berço de muita desta revolta que envolve o 25 de Abril. E, portanto, este filme tem estas duas perspetivas, de ser a história contada pelas mulheres e, ao mesmo tempo, ser a história contada pelas mulheres portuguesas e pelas mulheres que, em África, lutavam pela independência dos seus países. E era uma luta comum", afirmou.
"Várias mulheres africanas lutaram ativamente contra a guerra e pela independência e autodeterminação dos seus países, que estavam ocupados (...) não só na luta armada, mas lutaram a criar redes, a criar escolas, a criar hospitais. A alfabetizar também", dissde.
A guerra colonial é, para Raquel Freire, determinante, no envolvimento e no papel que as mulheres assumem a partir de então.
"O testemunho da Margarida Tengarrinha fala disso. Estamos a falar claramente das mulheres que vão ao mercado, que falam com as outras e que começam a dizer não à guerra. São os preços que sobem, são os filhos e os maridos que desaparecem. E, portanto, as mulheres tomam aqui a dianteira nesta luta contra a guerra colonial. E a paz torna-se uma palavra política, que é também uma coisa a que nós assistimos hoje em dia", referiu.
Também por isto a realizadora considera que o filme "tem um lado atual" perante as guerras atuais.
"Eu penso que este filme tem este lado tão atual, porque nós hoje em dia enfrentamos guerras. Enfrentamos injustiças tremendas. Enfrentamos novas formas de fascismo. E a sabedoria que estas mulheres acumularam, que estas mulheres tiveram para lutar contra um sistema tão opressor, que tinha uma polícia política que matava, perseguia, é-nos fundamental hoje em dia para nós também termos as nossas ferramentas para lidarmos com a violência quotidiana que temos neste momento em 2026", disse.
Cinquenta e dois anos após a Revolução de Abril e 51 das independências africanas, o filme é um posto de escuta e reconhecimento, que celebra uma participação silenciada durante décadas, e que a autora entrega agora às novas gerações.
"Estas mulheres são museus vivos de sabedoria democrática com várias ferramentas e, sobretudo, com um amor pelos outros e pela liberdade que são profundamente inspiradores. Portanto, sim, este é um filme para as novas gerações, porque é um filme com o pé no presente e no futuro. E o final do filme é mesmo dirigido aos mais jovens e às mais jovens", conclui a realizadora.
Com um tema original de A_garota não, "Fazia tudo de novo (uma revolução nunca acaba)", "Mulheres de Abril" terá a sua antestreia no dia 01 de maio, no Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa, e estreará nas salas de cinema no final do ano.
Filmado entre 2023 e 2025 por uma equipa inteiramente feminina, com produção da MadameFilmes, é dedicado a três das 10 mulheres de abril que já faleceram: Margarida Tengarrinha, Teresa Loff Fernandes e Maria Emília Brederode Santos.
"Essa é a parte que me custa, mesmo sabendo que elas vão continuar vivas connosco, através da sua presença no cinema", confessou Raquel Freire.








