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Mas não lhe tiram a carta

Abril 20, 2026 . 21:15
Circula uma petição que propõe impedir a condução automóvel a partir dos 75 anos. À primeira vista, a intenção parece nobre: reforçar a segurança rodoviária.

Mas a generalização que lhe está subjacente é, no mínimo, discutível — e, no limite, injusta. Considerar que a idade, por si só, define a capacidade de conduzir é um erro de simplificação. O envelhecimento não é um fenómeno uniforme.

Há pessoas de 80 anos com plena lucidez, excelente julgamento e uma condução irrepreensível. E há jovens que deveriam estar longe de qualquer volante. A competência não obedece ao calendário.

Mais do que a idade, importa a avaliação individual, clínica e funcional. O resto é atalho administrativo. Recordo um caso vivido no consultório que ilustra bem esta realidade. Um doente meu, com 87 anos, faleceu poucos dias após o Natal. Só tive conhecimento do seu desaparecimento uma semana depois, ao ler no jornal a missa do sétimo dia. A idade não surpreendeu.

O que surpreende, muitas vezes, não é a morte — é a forma como a vida se mantém até ao fim. Ainda poucos dias antes me tinha visitado, acompanhado pela esposa. Era um homem afável, educado, culto, com uma lucidez notável. Tinha maleitas próprias da idade, mas encontrava-se compensado. Até o tremor de que padecia tinha diminuído.

Falava com serenidade e humor. Estava casado há 67 anos e dizia, com satisfação tranquila, que gostaria de chegar aos 70. A esposa sorria e respondia com resignação: “Se for essa a vontade de Deus…”

Pouco tempo antes, porém, fora-lhe recusada a renovação da carta de condução devido ao tremor. Não se tratava de um quadro incapacitante grave, mas de um tremor senil. A decisão teve consequências imediatas: perda de autonomia, frustração e um quadro depressivo significativo.

Foi avaliado por um neurologista, que confirmou a sua aptidão para conduzir. A carta acabou por ser renovada. A norma dizia uma coisa; a vida, outra.

Nunca esquecerei a forma como voltou ao consultório: feliz, grato, sereno. A depressão desaparecera. Mais tarde, pude observá-lo na condução quotidiana. Chegava cedo às consultas. Conduzia com prudência exemplar, atenção rigorosa e um sentido de responsabilidade que contrastava com muitos outros condutores mais jovens.

Morreu entretanto.
A esposa e a filha vieram comunicar-me o sucedido. A dor era discreta, contida.
— Andava tão bem, senhor doutor… Já não vamos fazer os setenta anos de casados.
— Pois não — respondi.

E então acrescentaram, quase em surdina:
— Mas não lhe tiraram a carta…
— É verdade.

Ficou um silêncio longo. É nesse silêncio que reside a questão essencial: não a idade como fronteira automática, mas a tendência crescente para substituir o juízo clínico pela regra geral, a avaliação pela norma, a realidade pela abstração.

A segurança rodoviária é um bem essencial. Mas a dignidade individual também o é. E entre uma e outra não deveria ser necessário escolher — apenas saber avaliar.

Cada vez que um doente morre, é como morrer um pouco também. Mas há histórias que nos obrigam a pensar nos vivos e na forma como, por vezes, lhes vamos retirando pequenas parcelas de autonomia em nome de uma segurança que, sendo necessária, não deve ser cega ao que faz aos vivos.

Ainda há dias passei um atestado médico a um “jovem” de 92 anos, perfeitamente capaz de fazer inveja a muita gente mais nova — e que promete continuar assim. Naturalmente, dei-lhe os meus parabéns. Não foi necessário qualquer aviso, nem conselho.

Abril 20, 2026 . 21:15

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