Se isto é futebol, estamos todos a perder
Não é um exagero. Não é um caso isolado. É um sinal claro de que alguma coisa está profundamente errada no futebol que estamos a construir.
O futebol de formação devia ser um espaço de aprendizagem, de respeito, de crescimento. Um lugar onde se ensina a ganhar e a perder, a competir com lealdade, a respeitar todos os intervenientes, árbitros incluídos. Mas, cada vez mais, os adultos estão a falhar redondamente.
Porque é disso que se trata: falha dos adultos, as crianças querem correr atrás da bola divertir-se e os adultos estão a estragar essa felicidade.
Quando há agressões a árbitros, não são os miúdos que falham, mas sim os adultos, os treinadores, os dirigentes e todos aqueles que transformam um simples jogo num momento de tensão, pressão e, em alguns casos em violência.
O árbitro tornou-se, há muito, o alvo mais fácil do futebol, o culpado de tudo. O rosto onde se descarregam frustrações, derrotas e incompetências. E o mais preocupante é que esta cultura deixou de estar confinada ao futebol profissional. Desceu às distritais e à formação, onde existe menos segurança e, por vezes, passa a mensagem de impunidade.
E quando se normaliza o insulto, a pressão constante e o desrespeito, a agressão deixa de ser um choque, passa a ser apenas mais um passo. Mas este caminho tem consequências.
Cada agressão, cada ameaça, cada jogo onde o árbitro entra com receio do que poderá acontecer, é mais um empurrão para que este se retire da arbitragem. Este tipo de “culpabilização “por parte dos espectadores leva a que cada vez seja mais difícil recrutar árbitros. O insulto, a violência cria escassez e fragiliza, ainda mais, as competições e, coloca em risco o futuro do próprio jogo.
Porque há uma verdade simples que muitos insistem em ignorar:SEM ÁRBITROS, NÃO HÁ FUTEBOL.
E a pergunta que se impõe é inevitável: que futebol queremos? Um futebol onde vale tudo? Onde o erro se paga com insultos e violência? Onde as crianças crescem a aprender que quando o resultado não lhes é favorável, podem responsabilizar a arbitragem, e lhes é passada a ideia que podem transformar a sua frustração em insultos e em violência? Ou um futebol que educa, que forma, que transmite valores?
A responsabilidade é coletiva. Não é apenas das entidades que organizam. É dos clubes que permitem, dos dirigentes que silenciam, dos treinadores que inflamam e, sobretudo, dos adultos que, muitas vezes, esquecem que estão ali para dar o exemplo.
O problema não começa no árbitro. Começa fora das quatro linhas. Está na forma como se fala do jogo. Na forma como se reage ao erro. Na incapacidade de aceitar que o futebol, como a vida, não é perfeito. Errar faz parte. Agredir nunca fará.
Se continuarmos neste caminho, não estaremos apenas a perder árbitros. Estaremos a perder o futebol na sua essência. E nesse dia, não haverá vencedores. Porque se isto é futebol… então estamos todos a perder.





