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Antigos alunos de Foz Côa recordam luta em defesa das gravuras rupestres

Há 30 anos a frase “As gravuras não sabem nadar” tornou-se o hino dos estudantes de Foz Côa que mostraram ao mundo a arte rupestre do Côa, um património que se tornou universal e se sobrepôs a uma barragem que o iria submergir

Em vésperas da recriação do mega-acampamento e das manifestações que ocorreram durante o ano de 1995, a agência Lusa ouviu os testemunhos de antigos alunos da Escola Secundária desta cidade do distrito da Guarda, que acabaria por se tornar no “quartel-general” daqueles que defendiam as então recém-descobertas gravuras do Paleolítico Superior, existentes no Vale do Côa, com mais de 25.000 anos, em detrimento da construção de uma barragem, no sítio da Canada do Inferno, que as iria submergir.

A fase de luta“ As gravuras não sabem nadar” foi adotada pelos alunos de Vila Nova de Foz Côa, tendo por base uma música da altura do grupo Black Company.

Dalila Correia, que então frequentava o 12.º ano, recordou esses tempos de luta em prol da defesa das gravuras rupestres que acabaram por ser classificadas como Património Mundial com o aval da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

“Foi um tempo vivido com a energia de quem na altura tinha 17 anos e que acreditava que o património tem valores a serem defendidos, são algo de maior que estava acima do que era os interesses económicos de uma território, como era na altura a construção de uma barragem”, indicou a antiga aluna.

Dalila Correia recordou “que esta foi uma luta não só protagonizada pelos estudantes de Vila Nova de Foz Côa, mas também de todo o país”, reunindo "jovens da Faculdade de Letras do Porto ou da Faculdade de Belas Artes do Porto, de Coimbra"

Já António Jerónimo, outro dos estudantes envolvidos nesta luta, disse que o momento não foi “de rebeldia, mas sim, um sentimento de proteger o património”.

“As escolas, há 40 anos que nos ensinam a preservar o património e, por isso, cumprimos o nosso dever. Não foi um ato de rebeldia (...). Fizemos o que estava na nossa consciência de livre e espontânea vontade, sem a pressão de ninguém, como alguns queriam passar para a opinião pública”, vincou.

Nuno Saldanha, que era também um dos alunos desta escola, e presidente da Associação de Estudantes, disse que este movimento pró-gravuras foi uma “coisa ímpar que ninguém estava à espera”.

“A fruição do património cultural é um direito e, ao mesmo tempo, um fator económico, que alunos trouxeram para a ordem do dia, o que fez com que a luta avançasse, que se tornasse também uma luta de académicos, políticos. Mas havia outra fação que defendia a construção da barragem [e] o seu impacto no comércio local”, disse.

Outros dos intervenientes desta luta em defesa da gravura rupestre do Vale do Côa foi José Ribeiro, então presidente do Conselho Diretivo da Escola Secundária de Foz Côa, que relembra que em 1995, depois da descoberta de algumas gravuras neste território, a escola tomou desde logo uma posição ativa.

“Estávamos em janeiro de 1995 e fizemos uma reunião geral de professores, alunos e funcionários, onde foi confirmada a vontade coletiva da escola em defender este grande património. Em fevereiro do mesmo ano, elaborámos um texto que foi enviado para o então Presidente da República (PR), que era Mário Soares, e ao primeiro-ministro da altura, António Guterres. Desde logo foi endereçado um convite ao PR para vir visitar as gravuras do Côa”, explicou o ex-docente.

Segundo José Ribeiro, numa visita à região, em fevereiro de 1995, os alunos conduziram Mário Soares para dentro da escola, onde no discurso proferiu a frase “as gravuras não sabem nadar”, que era o ‘slogan’ da comunidade estudantil e que se tornou um marco histórico.

Já o presidente da Fundação Côa Parque, João Paulo Sousa, também então professor, defende que numa altura em que assinala a efeméride, “este programa de celebração de 30 anos do Côa,  pretende incutir um sentimento de pertença com o território e uma aproximação das populações com o património classificado”.

A suspensão da construção da barragem do Côa foi decretada oficialmente a 17 de janeiro de 1996, acompanhada pelo pedido de elaboração de um relatório sobre o valor patrimonial e arqueológico da região pela UNESCO, que permitisse ao Governo uma decisão definitiva e fundamentada sobre o projeto hidroelétrico.

Após as primeiras descobertas feitas no início da década de 90 do século passado, foi criado o Parque Arqueológico do Vale do Côa (PAVC), em 10 de agosto de 1996, onde foram identificadas 190 rochas com arte rupestre.

Atualmente há 1.511, das quais 38 são pintadas, o que representa um total de 15.661 motivos identificados, em mais de uma centena de sítios distintos, sendo predominantes as gravuras paleolíticas, executadas há cerca de 30 mil anos, num ciclo artístico que nunca foi interrompido e que ocupa 20 mil hectares

A Arte do Côa foi classificada como Monumento Nacional em 1997 e, em 1998, como Património Mundial pela UNESCO.

Março 25, 2026 . 21:45

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