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Travassós de Cima não esquece quem perdeu a vida no acidente do IP3

O autocarro que regressava do Santuário de Fátima despistou-se a 24 de março de 2001, num acidente que roubou a vida a 14 pessoas, a maioria da localidade de Rio de Loba, onde ainda há feridas por sarar

“Abençoa, senhor, as famílias, amém. Abençoa, senhor, a minha também”, canta Ana Néri. Ao contrário do que esperávamos, não nos sorri. Deixa apenas escapar uma confissão: “já não posso ouvir esta música”.

O olhar humedecido denuncia uma dor que tenta enterrar há 25 anos e, em instantes, percebemos que são palavras que a fazem recuar até 24 de março de 2001, o dia em que um autocarro com cerca de 40 peregrinos regressava do Santuário de Fátima.

Quis a frieza do destino que 14 pessoas, a maioria de Travassós de Cima, freguesia de Rio de Loba, perdessem a vida no IP3, junto à Quinta da Memória. Ana Néri, uma das sobreviventes do desastre de Santa Comba Dão, já fez as pazes com Nossa Senhora, mas a dor, garante, ficará “sempre presente”.

Acidente Autocarro Santa Comba Dão 25 Anos 1
"No início sentia-me culpada porque chamei as pessoas que eu mais gostava"

Abriu-nos a porta ainda que a tenhamos relembrado “daquele dia”. Mas não deixou de recordar “as pessoas mais amigas que tinha na altura”, de seu nome Rosa, Augusta, Librantina e Álvaro, que faleceu dois meses depois do acidente.

Recuámos 25 anos e ali estávamos a alguns instantes do autocarro bater. “Na altura, já tinha um telemóvel. Por volta das 20h00, o meu marido ligou-me para perguntar se já estávamos a chegar e eu ia levantada, talvez para ouvir melhor”, começou por contar ao Diário de Viseu.

Dirigiu-se ao amigo e vizinho Álvaro, a quem perguntou em que localidade se encontravam. Em tom de brincadeira, devolveu-lhe: “no autocarro”. Nesse momento, o pior aconteceu. Não se conheceram barreiras, nem obstáculos. O autocarro, que vinha da “terra de Nossa Senhora”, entrou em despiste e não respeitou limites.

Cruzou o IP3, desbravou vegetação e encontrou fim no fundo de uma ravina, que também não adivinhava o sofrimento das próximas horas. “Deu-se o acidente. O meu marido deu conta em casa pelo telefonema, mas eu já não dei conta de nada, devo ter-me agarrado ao banco”, suspirou Ana Néri.

“Psicologicamente fiquei muito mal e ainda hoje há dias em que a ansiedade vem”

Veio a si e só se recorda de sentir “um corpo muito pesado”, ouvir “tudo a gritar” e ver pequenos focos de luz. “Estava com a cara no chão, acho que nos paralelos, e comecei a ver as pessoas que nos iam socorrer. Calcaram-me as pontas do dedos, eu queixei-me e disseram logo ‘há aqui corpos’”, contou, recordando que no momento em que foi socorrida “só procurava pelas pessoas de quem gostava”.

Ficou em Santa Comba Dão e, por isso, foi também das últimas a chegar ao Hospital de Viseu. “Não estava com ferimentos muito graves, só num pé e que os médicos dizem que já é para a vida”, lamentou, adiantando que “psicologicamente fiquei muito mal e ainda hoje há dias em que a ansiedade vem”. A vida de Ana Néri continuou, tem netos e filhos “bem na vida”. Disse-nos que, ao contrário de muitos, teve a sorte de ver “a família toda bem”.

Acidente Autocarro Santa Comba Dão 25 Anos 11
"Nesse dia, morreu ela e morri eu", disse António Néri

A verdade é que a tarde já ia longa quando encontrámos António Néri, marido de uma das vítimas deste desastre, Rosa Almeida. Junto a um dos cafés do Largo do Soito, lia o Diário de Viseu para ficar a par das últimas notícias. Conversámos sobre o acidente e, na verdade, derrubou-nos com breves palavras: “nesse dia, morreu ela e morri eu”. Como muitos, recebeu a notícia pela televisão e, sem pensar, foi para o hospital ver quem chegava. “Levava uma vida tão boa e já passou tudo”, lamentou.

Ao lado, José Almeida Soares recorda também a irmã que perdeu no acidente. “A minha irmã era mais velha que eu, chamava-se Maria Cecília Almeida”, disse.

Acidente Autocarro Santa Comba Dão 25 Anos 13

A sair do largo, ainda encontrámos Lurdes Ferreira, alguém que era para ter ido na excursão até Fátima, embora o destino tenha tido outros planos. “Eu, por acaso, também era para ir, mas não fui. Nesse ano era o casamento da minha filha e fiquei cá para preparar. Olhe algum palpite que veio do céu”, considerou.

A verdade é que “parece que foi ontem”, na altura, “achavam que eu tinha ido e foram logo bater-lhe à porta porque íamos todos os anos”, disse.

“A maior parte da gente que morreu era tudo daqui. Nesse dia à noite soubemos logo pela televisão. Estarmos à espera delas e chegar essa notícia a casa, foi muito triste”, reconheceu, garantindo que “foi um acidente muito feio e que ficou marcado para a vida toda”.

As operações de socorro do conhecido acidente de Santa Comba Dão envolveram mais de 100 operacionais, entre bombeiros, forças da GNR e outras autoridades.

Março 24, 2026 . 10:00

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