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“A revolução que começa num campo de futebol”

Março 17, 2026 . 08:00
Aminha filha enviou-me uma fotografia do filho a disputar um jogo de futebol. Comentário anexo ao retrato: “olha a pinta do teu neto…” Tem mesmo pinta. Já não me recordo bem quando começou a jogar. Era muito pequenino. Não digo que ainda usava fraldas, porque isso não deveria ser nada confortável.

Gosta de desporto — e eu gosto imenso que pratique. O desporto é um dos grandes investimentos sociais, com reflexos profundos na saúde, na conduta e até no emprego.

A propósito desta fotografia recordo que, há muitos anos, num debate sobre medicina preventiva, defendi que a melhor forma de tornar uma comunidade mais saudável seria promover a prática desportiva a par de um elevado estatuto cultural.

À primeira vista, a ideia não parece especialmente original. No entanto, o conceito de “fazer” desporto que então propus era um pouco diferente do que hoje se pratica. Afirmei que seria desejável transformar a Educação Física numa disciplina nuclear de acesso ao ensino superior, fosse qual fosse o curso.

Naturalmente, as restantes disciplinas seriam selecionadas em função da área de estudo pretendida. Mas ao atribuir verdadeira importância à Educação Física — desde a infância até ao final do ensino secundário, e até no próprio ensino superior — seria possível obter ganhos extraordinários com investimentos relativamente modestos. Vejamos: muitas das chamadas doenças da civilização (agora “transformadas” em doenças crónicas e degenerativas) estão diretamente ligadas ao sedentarismo crescente.

Enfartes do miocárdio, acidentes vasculares cerebrais, hipertensão arterial, dislipidémias, diabetes, obesidade, algumas formas de cancro, doenças músculo-esqueléticas, osteoporose, depressão, ansiedade e agressividade — apenas para citar algumas — têm relação com a falta de utilização do corpo.

Passamos grande parte do tempo sentados ou deitados. A imobilidade tornou-se quase uma praga silenciosa.
Criar uma verdadeira consciência da importância da prática desportiva desde tenra idade — e valorizá-la social e educativamente — poderia contribuir para uma sociedade muito diferente da atual. Como combater com mais eficácia a toxicodependência?

Com desporto. Como reduzir o consumo de tabaco? Com desporto. Como enfrentar o alcoolismo? Com desporto. Como prevenir a diabetes e a obesidade? Com desporto. Como ajudar os jovens a desenvolver maior solidariedade e generosidade? Com desporto. Como ensinar respeito pelas normas e pelas leis? Com desporto. Como melhorar a aprendizagem escolar? Também com desporto.

Poderiam formular-se muitas outras perguntas importantes que conduziriam, provavelmente, à mesma resposta. Porque quem pratica desporto tende a viver mais e melhor: são, em regra, pessoas mais saudáveis, mais equilibradas, menos agressivas, com menor propensão para o crime, menos depressão e ansiedade, menor risco de suicídio, maior autoestima e maior capacidade de trabalho e cooperação.

As consequências imediatas e futuras traduzir-se-iam também numa economia difícil de quantificar: menos consultas médicas, menos hospitalizações, menor consumo de medicamentos e maior produtividade. Em suma, mais saúde e mais riqueza coletiva.

Naturalmente, uma medida com esta dimensão também teria alguns efeitos secundários. Mas não seriam propriamente preocupantes. Muito provavelmente acabaríamos por ganhar mais medalhas olímpicas e mais campeonatos nas diferentes modalidades por esse mundo fora. Coisitas de pequena monta, claro está…

O rapaz tem boas características pessoais. Algumas nasceram com ele; outras foram sendo moldadas pelo gosto pelo desporto. O seu amor pela Académica é bem visível nesta fotografia. E como no desporto nem sempre se ganha, também já aprendeu algo essencial: aceitar a derrota com dignidade, respeitar o adversário e voltar ao jogo com vontade renovada.

Março 17, 2026 . 08:00

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