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Sexagenário vive "como um animal" sem água, sem luz natural e sem wc
João mudo, como assim é conhecido, tem 60 anos e, desde que o pai morreu, que vive sozinho num cubículo, uma antiga cozinha, sem água e sem luz. A irmã, sua tutora, diz que vai vê-lo três vezes ao dia e, logo pela manhã, leva- -lhe a comida. A Segurança Social já tentou levá-lo para um lar mas a tutora não deixou. Populares de Tondelinha até julgam que João já morreu
João mudo, como é conhecido em toda a aldeia de Tondelinha, na freguesia de Orgens, vive, aos 60 anos de idade, "de forma desumana, como um autêntico animal", conta uma das residentes na aldeia. Sem ninguém querer dar nome nem cara, com quem quer que se fale, todos opinam mas, sob anonimato. "Sou do tempo de escola dele mas, naquela altura não havia ensino especial como hoje há e ele, coitado, como não conseguia comunicar com ninguém também não frequentou as aulas", conta outro sexagenário. Dos habitantes todos contam o mesmo que, enquanto os pais eram vivos era um "grande trabalhador, sempre agarrado à lavoura das terras e a apanhar lenha". "Trabalhou para muita gente a apanhar pinhas e a podar videiras", acrescentam. João costumava andar na rua, ia ao café e à missa, com o pai. "Nunca fez mal a ninguém, nem nunca se meteu com ninguém", contam os populares. Desde a morte do pai, há 12 anos, nunca mais foi visto na rua como antes. "Primeiro ficou a viver sozinho na casa onde habitava com os pais mas, depois, o tecto caiu e a irmã passou-o, há uns cinco ou seis anos, para uma cozinha térrea, um autêntico cubículo", revelam. Não há ninguém que não comente no povo a forma como a irmã trata do irmão mudo. "São quatro irmãos ao todo mas, é ela que manda, e prende, com cadeado, o irmão, nem ele sai, nem lá vai ninguém vê-lo e a comida é entregue pela manhã", contam os habitantes e naturais de Tondelinha. "Vá lá que agora já não traz a comida no balde como se leva para os animais, porque a população chamou-a à atenção, e sempre a traz numa cesta de plástico".
Não tem luz do dia
A cozinha onde habita, local de poucos metros quadrados, sem água, sem quarto de banho e sem luz natural, uma vez que as janelas estão tapadas com chapas de zinco e o vidro da porta tem casacos pendurados a tapar a luz, tem um divã, atrás da porta e uma mesa do outro lado. Sem espaço para ter mais nada, João passa o seu dia-a-dia, há cerca de seis anos, ali. O espaço fica ao fundo de um pátio, no sopé do que resta da casa dos pais. Para entrar é preciso que Maria da Anunciação, a irmã, abra o cadeado que tranca os portões. "Não é para ele não sair, é para essa vizinhança toda não vir para cá atirar com lixo e coisas". À entrada, no pátio, o monte do estrume é visível e bem sentido. "É para aqui que atiro o que ele faz, uma vez que não tem wc", justifica Maria da Anunciação. O espaço, todo escuro, alberga João. "O meu irmão é que quer assim, é ele que tapa tudo porque gosta de estar às escuras", adianta Maria da Anunciação. A irmã não esconde que o irmão "vive em muito más condições, de forma desumana, mas é ele que quer assim". "Já o trouxe para minha casa, tenho ali um quarto para ele, mas fugiu", explica. "Ele não quer viver em mais lado nenhum", afirma convicta. Maria da Anunciação não consegue explicar como é que ele lhe transmite isso, mas diz que sabe "muito bem o que o irmão quer ou deixa de querer". "Eu é que sou a irmã dele, eu é que sei". Confrontada com a necessidade de realizar obras no espaço, Maria da Anunciação afirma que "não é por falta de vontade, é só pela simples razão que falta o tribunal dar autorização". "Não há meio de o tribunal colocar os bens que lhe calharam em nome dele, para eu poder fazer as obras. Ainda está tudo em nome dos meus pais, por isso é que não posso mexer", explica.
Tutora não o quer num lar
O director do Instituto de Segurança Social de Viseu (ISSV), Manuel João Dias, explica ao Diário de Viseu que o caso é conhecido e, em 2005, depois de várias tentativas de aproximação, mas sem êxito por causa da oposição da tutora, pediu, através do tribunal o "internamento compulsivo do senhor João mas, a irmã, opôs- -se à situação". "Esteve para entrar para um lar mas, a tutora opôs-se determinantemente e até de forma mais desabrida", lembra o director. Maria da Anunciação confirma e avisa que "enquanto for viva o irmão não vai viver para lado nenhum". "Ele tem família não vai para lar nenhum", reage. A irmã defende que "o tribunal e a segurança social não têm que o levar para um lar e sim construir-lhe um quartinho e um quarto de banho para ele ter condições para viver". Não admite a ida para lugar nenhum, nem mesmo para se realizarem as obras no espaço que habita. Um filho e um genro de Maria da Anunciação, juntam- -se à conversa e adiantam que assim que pudessem fazer obras, "ficariam prontas em 15 dias, mas não se pode, isto não é deles". Afirmam que vivem a agonia de ver e saber que o tio está naquelas condições mas, quando tomam conhecimento que já existiu uma oportunidade para ir viver num lar, mostram-se totalmente surpreendidos. "Não sabia", afirmam ambos. Maria da Anunciação defende-se com os problemas existentes no seio dos irmãos, uma vez que "há muitos problemas de partilhas para resolver". "Não vou fazer obras para ter condições e depois, virem outros, usufruírem do que fiz. Também tenho cinco filhos e tenho que pensar no futuro deles", reage.
Tutela esteve em tribunal
Em 2006, um dos habitantes de Tondelinha e amigo de João, tentou ficar com a tutela para dar dignidade à sua vida. "Sem interesse nenhum, só mesmo para que vivesse com dignidade e respeito que o ser humano merece", afirma. Este habitante lembra que, num Agosto de há dois ou três anos, comunicou com o amigo. "Perguntei-lhe porque é que já não ia à missa e respondeu-me, através de gestos, que já não sabia distinguir quando era domingo". Por decisão do tribunal, a tutela foi dada a Maria da Anunciação. "Pelo exposto, julgo procedente o pedido formulado e, em consequência, decreto a interdição de João, por anomalia psíquica e surdez-mudez, fixando o começo da incapacidade na data do seu nascimento. Em consonância, nomeio Maria da Anunciação, irmã do requerido, como tutora". Uma decisão que provocou "muita revolta" ao amigo que tinha pedido a sua tutela porque "são conhecidas as formas como ela o trata". "Ela só quer ficar com a pensão dele, toda a gente sabe disso". Na aldeia, todos dizem o mesmo. "Ela só faz isso por causa do dinheiro que recebe", o que a irmã nega.
Isabel Marques Nogueira
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